Pastakas and Machado

Γνωρίσαμε τον Πορτογάλλο ποιητή Ίβο Ματσάδο στη Διεθνή Συνάντηση Ποιητών στο Σεράγεβο (13 με 15 Οκτωβρίου 2006), και ζητούμε να βρούμε έλληνα μεταφραστή από τα πορτογαλλικά. Όποιος ενδιαφέρεται ας επικοινωνήσει μαζί μας.

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INTER-VIAGENS
No comboio direcção a Lisboa, uma mulher
— humilde, tem sua idade no rosto de rosa encarnada —
acordou-me para vender Queijadinhas de Coimbra
e Pasteis de Tentúgal. E de repente, de Norte
para o Sul, o que alcanço
não é o que a mulher traz no cesto, o que alcanço
não é o cenário através da janela em movimento,
nem sequer os rumos das grandes questões da Poesia;
não pergunto onde começa ou acaba
a nossa melancolia como Povo, onde principia a viagem
sem saída que sempre me traz dentro de um poema.
O que alcanço é o nada, ou assim me parece
vou em viagem; vou de viagem
atravesso uma espessura de dédalos com ou sem funduras
de melancolia, com ou sem borboletas por entre as pétalas
das rosas abrindo, que pressinto débeis como frágeis
os meus laivos de memória salobra
reflectidos num animal serpenteando-se mais além
— Um réptil carregando o meu espanto
vou em viagem; vou de viagem
sabendo que desembarcando, voltarei de novo a embarcar
imaginando que os poetas
viajam por dentro das rosas encarnadas, na sombra
de uma árvore ou na cauda de um cometa, esperando
que desembarque a mulher fazendo as suas matemáticas
misturadas em perguntas ao coração
Ah, quantas Queijadinhas de Coimbra
e Pasteis de Tentúgal terão cumprido a sua função?

(Inédito)

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2 DE DEZEMBRO DE 1967

Na madrugada do dia 2 de Dezembro de 1967
começou a grande tristeza de minha mãe. Ainda
Neil Amstrong não pisara a lua, nem meu pai
gozava salário de gente, tão pouco conhecia
o rosto à liberdade
[no meu país – diziam estrangeiros – os utópicos
viviam sob silêncio, masmorra e nó]
Enfim, marcou-me a data
por ser esse o dia da morte de minha avó.
Ao contrário de meus filhos nasci em escuridão,
como meus pais, como o meu país, mas apesar
da tristeza de minha mãe e do salário de meu pai,
de minha avó herdei uma lição: nenhum tirano
mata a poesia ou proíbe um aperto de mão.
In, Os Limos do Verbo, 2005

PÁTRIA
Creio no arco-íris, na cal duma velha casa e na reconciliação
das vozes dissonantes; creio na exaltação do ensejo do fogo
dos amantes; creio na claridade da alma e espírito da chuva;
creio na causa da lua sobre marés, na liberdade, nas palavras
Creio nos peixes, nos segredos do mar; creio nos sortilégios
duma árvore, na virtude da paz; creio no fecundo da poesia
e nos quatro elementos; creio na essência de vulcões e rios;
creio na eternidade das bibliotecas, na ressurreição do Poeta
Creio nos pássaros, nas dádivas da terra, na bondade do sol;
creio na agitação dos girassóis ao amanhecer; creio nos dias
que virão, na música, nas rosas, na fecundidade dos ventos.
Eis a Pátria que admito; creio nela sem medo de envelhecer.
In, Verbo Possível, 2006

PARA QUE SOBREVIVAM
a meu pai
Cuidas os frutos, os teus frutos, como cuido a ordem,
o peso dum verso
E chegando o Inverno, sentimos a mão desmesurada
dos ventos intrometerem-se, como se intrometem
as poeiras nas meias-canas dos telhados onde as maçãs
são assadas ao fogo, porque assim as querem
as árvores do sangue dos rituais
Do mesmo modo os versos podo para que não morram
antes da função a que se destinam,
e soubesse a razão dessa função
não seriam mais versos. Do mesmo modo
não seria verdadeira a vigília
do teu amor pelos pomares onde resta a nossa subsistência
Por isso cuidas os frutos, por isso vou podando o verso
Lembras-te, pai, lembras-te da nossa primeira macieira? Como
a regavas com teus olhos, como a pulverizavas com tua fala
Para mim era absurda toda aquela celebração,
e só agora que as maçãs sobre a mesa não provêm
de teu pomar, entendo esse tempo, e entendendo
queria regressar a ele, escutar
como a terra bebia toda aquela cantilena. Era
a geografia do pomar que queria multiplicar
por tanto lado. Para que todos os frutos se sentissem
amados, pois faz falta o afecto aos frutos,
do mesmo modo aos versos. Verso por verso
não é verso, maçã que não foi cantada não mata a sede
Cuidas os frutos, os teus frutos, na crença da memória, embora
tenhas percebido que ninguém mais perde tempo
na vigília dos pomares, onde moram maçãs e versos
Sim, os teus frutos são palavras habitando uma terra única,
onde só é possível, só resta, a poesia
para matar a sede de tanto inverno sem abrigo
Pai, cuida os frutos para que os versos
sobrevivam.
In, Os Limos do Verbo, 2005

NO TECTO DA NOITE
Sabes: ainda escrevo versos para guardares com os retratos,
mais as palavras e os pratos que preparava
ao mesmo tempo que escrevia [ou procurava escrever] versos
limpos, sem intenção de métrica [decassílabo ou não] só
a metáfora importava. Às vezes
ninguém os lia — estavam ao fogo, dizia — pensando
que assim não partirias nunca. Mas partiste, e não sei
que fazer dos versos — a quem os dedicar? a quem os ler? — Ou
como cuidar as palavras. Agora mesmo, se quiseres,
sem mo pedires, inventarei uma gramática. Em seguida
entrarei num café qualquer, guardarei para ti um pastel de nata
e no guardanapo deixarei um verso porque sei,
antes de comeres a flor, primeiro irás ler
o que deixei em jeito de memória
Sabes: serei capaz de reescrever todos os versos,
depois apontar as datas exactas, os lugares, juntar-lhes
o agridoce da voz que os lia, mais a coreografia
que nos teus olhos se incendiava
A memória é uma fogueira, quando a julgamos extinta,
reacende-se, para entendermos que nada se perdeu
Ainda escrevo, não para que regresses, mas porque acredito
que, sem o dizeres, sabes que no tecto da noite
guardo o poema que sempre escreverei para ti,
não importando se o irás ler ou se menti
dizendo que o escrevi. Ainda moras aqui
E escrevo poemas
Quando criança me perdia vendo as laranjeiras floridas, à noite
contava estrelas cadentes, outras as luzes dos barcos
que me traziam acordado dentro do sonho. Agora,
no poema, quero um sonho mais. Ainda moras aqui

E escrevendo, penso
— Não se extinguirá a fogueira nem secará o fruto. Aqui
mora a figueira que plantámos.
Então, virá outro dia e, sentados sobre a erva
tenra, comeremos figos lendo versos, como
numa lenda antiga, quase
quase esquecida.
In, Os limos do Verbo, 2005

OS OLHOS DO SOL
Dizes — Hoje não veremos o sol, e fico sem saber
se é mesmo do sol que falas mas é ele que desejas,
embora acredite na revelação dum outro universo.
Só eu o conheço. Depois, ausentas-te
Será para me trazeres o sol ou uma pergunta?
Dizes que hoje não veremos o sol, resta a esperança
de ver seus olhos porque no mais recôndito de mim
é nisso que acredito. Ou não? Virá o sol confidente,
e persistirei calado ante a luz que insinuas
E sempre que reapareces é ainda o sol que conjugas
em todos os tempos, quase o desejo noutras terras,
demorado e esquecido de nós, assim exactamente
Quererás o sol, que te dê o sol ou os olhos do sol?
Desejo acreditar que é dele que falas ao dizer — sol.
In, Verbo Possível, 2006

LIBERDADE
A parede delira ao sol do meio-dia, a cal fere
a escrita ordenada de um mural e só a sombra
da acácia devolve ao espírito a pátria etérea
dominando no carmesim como se vigília fosse,
e vigília era esse manifesto apelo ao esmero.
Assim desordenadamente, celebrava o mural:
cada mote dum canto é novo golpe de punhal;
cada virgula o rebate; cada face um novo sol,
arrebatamento urgente, brado ou revolução.
Assim desordenadamente, um rapaz escutava.
A parede delira ao sol do meio-dia, a cal fere
e desfalece o ânimo do crente aluado e bardo,
quiçá se o pássaro estouvado que ateou a luz
à liberdade. Dionísio seria ou mesmo David,
o fecundo imortal na écloga da pátria etérea.
In, Verbo Possível, 2006

GRAÇA DOS IMPERFEITOS
Pudesse
compreender a pedra e sua gramática,
toda a linguagem do silêncio
haveria de comover. Porque
na verdade
dela herdei fala e alento.
Pudesse
enunciar os verbos para compreender
as declinações dos afectos, seria
alcançar a sublime graça
dos imperfeitos.In, Os Limos do Verbo, 2005

QUILÓMETRO ZERO
Para George Whitman
Sempre que regresso juro solenemente
não voltar a viajar. Até mim viajará o mundo
nas palavras dos livros e das cartas. As insónias
vêm depois, acordo a meio da madrugada
— proscrito dos sortilégios que trazem felicidade
aos meus vizinhos — passando o tempo que resta
do que foi a noite
estudando os astros atrasados, desejoso
de reencontrar a estrela
que minha mãe dizia ser o meu Anjo da Guarda.
Quando não a encontro faço como George
— Vou beber água às folhas antes da aurora.
Essa prata de orvalho fecundando os seres,
mantém inofensiva a humanidade.
Quando a minha estrela está dentro da madrugada
admito a eternidade, não que tenha nascido
exclusivamente para mim esse anjo
(terá velado reis e anónimos ou poetas e viajantes
que me antecederam e sucederão nos séculos
que hão-de vir) mas exaltando-a, subsistirei
Sempre que regresso escuto as canções
dos que passam a vida musicando poemas,
com isso sobrevivendo ou iludindo a morte. Interiorizo
que as palavras não pertencem a ninguém,
que não passo de um ignorante que viaja com fome
por Madrid, New York, Paris, Rio, Istambul.
O que regressa com mais fome ainda,
com mais sede,
carimbada a loucura no passaporte
a caminho do termo de validade diante dum gato
adormecido entre os livros no 37 Rue de la Bûcherie
— O quilómetro zero de Paris —
quando a quinta-essência do crepúsculo descera
sobre a rosácea de Notre Dame e, num cais próximo,
um mendigo orgulhoso da sua ruína
retirava do Sena um rato morto, desafiando George
à sua janela cortando o cabelo numa vela acesa.
Sempre que regresso juro solenemente
pelas quatro estações não voltar a viajar.
Jura inútil, sem consequência. Estou sempre a caminho
quanto mais não seja à causa dum livro que não trouxe
[como daquela vez a poesia de Boris Pasternak
em russo (língua que não domino) só pela carta de amor
em francês, escrita em papel vulgar e esquecida
entre as páginas de um livro de ?20, de capa dura e azul]
Se voltasse para trazer os poemas russos, George
convidar-me-ia para um prato de sopa na sua casa
— Quilómetro zero de Paris, uma outra Humanidade.
Sempre retorno, sempre retornarei.
Só em casa reencontro a estrela
que minha mãe dizia ser o meu Anjo da Guarda,
onde é mais pura e doce a água da aurora
nas folhas das árvores familiares,
consciente de que as palavras não são de ninguém.
Com menos fome, talvez. Mas ainda o ignorante
que não gosta de dizer
— Adeus.
(Inédito)
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IVO MACHADO
(BIOBIBLIOGRAFIA)
 

 

 

 

 

Ivo Machado nasceu nos Açores em 1958. Ainda estudante do liceu revela-se como poeta em páginas académicas mas seria no jornal A UNIÃO de Angra do Heroísmo que, em Março de 1977, viria a público o primeiro trabalho digno de registo. Tem participado com regularidade em diversos encontros de escritores, destacando-se — Correntes d’Escritas, Portugal; Salón del Libro Ibero-Americano de Gijón, Espanha; Cammino delle Comete, Itália, e, Festival Internacional de Poesia de Sarajevo, Bósnia-Herzegovina. Tem feito leituras dos seus poemas em vários países, como Espanha, Itália, Estados Unidos, Bósnia-Herzegovina, Uruguay e Brasil. Parte da sua poesia está traduzida para castelhano, inglês, eslovaco, húngaro, italiano e bósnio. Tem colaboração dispersa por revistas literárias no país e estrangeiro, estando ainda representado em inúmeras antologias. Vive no Porto, desde 1987.
 

Publicou:
ALGUNS ANOS DE PASTOR, poesia, 1981;
TRÊS VARIAÇÕES DE UM SONHO, poesia, 1995;
O HOMEM QUE NUNCA EXISTIU, teatro, 1997;
CINCO CANTOS COM LORCA E OUTROS POEMAS, poesia, 1998 (uma homenagem particular ao poeta de Granada, tendo sido convidado a apresentar o livro naquela cidade andaluza durante as comemorações do centenário do nascimento de Federico Garcia Lorca e, alguns anos mais tarde, editado naquele país numa edição bilingue);
NUNCA OUTROS OLHOS SEUS OLHOS VIRAM, novela, 1998;
ADÁGIOS DE BENQUERENÇA, poesia, 2001;
OS LIMOS DO VERBO, poesia, 2005
VERBO POSSÍVEL, poesia, 2006.
 

A publicar: POEMAS FORA DE CASA e QUILÓMETRO ZERO, poesia.